Palavras de sabão

Não fales. Quero o eco do silêncio, a reboque da distância de segurança que assinalei entre nós. Quero o encontro (só!) das respirações, que esse vale a pena ouvir. Quero não me encheres os ouvidos de algo mais do que a tua voz, que me enjoa os sentidos; e de todas as tuas promessas que sabem a pó, o qual eu já tenho em demasia debaixo da cama mas que pelo menos não me serve de monstro quando a noite cai. Quero não me expores como fazes com as feridas, para depois me seres um buraco negro no qual cabe tudo aquilo para que não arranjo espaço no final do dia. Quero não me enterrares em mim como um prego enferrujado e não me prenderes os movimentos aqui de lado quando respiro, ando ou tento saltar. Quero não me acotovelares o piso onde me mantenho, e quase me jurares que o pé em falso que dou quando tropeço na estrada é obra tua. Quero não me sussurares a tristeza emaranhada que sentes, nem sentir sabes, nem falar sabes. Não, asério, prende antes o hálito do tabaco aos dentes e enrola as mentiras numa teia que não a minha. Que essas palavras escorregam-me a paciência fora, deslizam-me como um parasita, sem encontrar um fim à irritadiça da pele e quando acontece, muitas vezes sem eu estar à espera, cravam-me sem dó nem piedade por dentro; e às tantas o sangue flui, aflito, porque sei, de fonte segura, que o que me fazes cola-se às artérias e sabe a azedo. Não digas nada. Escreve, que o papel queima-se. Articula, que os gestos esquecem-se. Suspira, que eu entendo. Mas não fales (por favor, não).
3 comentários:
"Escreve, que o papel queima-se"
escreve... simplesmente escreve. (que continue assim, bonito)
"white flag"
nao e possivel falar depois de ler algo assim
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